Government Documents

43 pages
6 views

Manual do Museu

of 43
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Share
Description
Manual do Museu
Transcript
  1 Manual do Museu Uma breve introdução a questões museológicas básicas de aquisição, documentação, conservação, manuseio e exposição de obras de arte Ricardo André Frantz 1 2010, revisado e ampliado em 2012   Prefácio Este material foi elaborado em princípio como uma introdução ao assunto para os estagiários do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, onde trabalhei por muitos anos como coordenador dos setores de exposições e acervo, tendo em vista o preparo praticamente nulo que essas pessoas traziam a despeito de estarem estudando artes plásticas. Pouco depois, foi apresentado, em assessoria prestada à coordenação do Acervo Municipal de Caxias do Sul, que começava a se organizar entre grandes deficiências de pessoal e infraestrutura, tendo boa receptividade, e foi disponibilizado para o público em meu site pessoal, tendo desde então apreciável procura, oscilando entre 150 e 200 visualizações mensais. Trata-se apenas do sumário do sumário do sumário, não é um estudo formal, e traz apenas conceitos extremamente generalistas. Não poderia ser diferente, levando-se em conta a enorme complexidade da matéria e o público a quem se destina. Para quem quiser aprofundar consulte a bibliografia especializada. Alguns títulos são sugeridos no final. Um texto introdutório deste tipo certamente será inútil para quem já domina o ramo, e pretende atingir antes os leigos interessados e museus pequenos que não possuem um quadro técnico com preparo sólido, e espero que seja proveitoso pelo menos para apontar caminhos de aperfeiçoamento e para ajudar a evitar os erros mais comuns no manejo de suas coleções, que podem ter consequências desastrosas e irreparáveis. Embora o conteúdo técnico deste “manual“ seja válido para todos os museu de arte, as políticas aqui apresentadas são aplicáveis mormente aos museus públicos, que são sujeitos a uma legislação especial. Entretanto, esta legislação reflete em linhas gerais o pensamento da vanguarda da museologia brasileira, e por isso suas prescrições poderiam ser empregadas com proveito também pelos museus e coleções privados. 1 Ricardo André Frantz foi, entre 1992 e 2011, funcionário público concursado do governo do estado do Rio Grande do Sul, com o estatuto de Técnico em Assuntos Culturais, atuando por um breve período no Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul, mas principalmente no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, Brasil, onde desempenhou as funções de Coordenador do Núcleo de Exposições, e, mais tarde, Coordenador do Núcleo de Acervo. Ali realizou, entre várias atribuições, as curadorias para grande parte das mostras do acervo da casa.  2 O museu na contemporaneidade   Até há pouco tempo as coleções públicas assumiam uma atitude passiva diante da sociedade, e seguiam critérios aquisitivos e administrativos vagos e em muito arbitrários, ditados principalmente por diretrizes herdeiras do antigo colecionismo privado, sem um aprofundamento sistemático e científico da definição e das potencialidades de atuação ativa, interdisciplinar e educativa dos museus, o que só veio a acontecer na década de 50. Depois de algum retrocesso, a reformulação conceitual ganhou novo impulso a partir dos anos 70-80, sendo lícito considerar esta reorientação como uma verdadeira revolução na concepção do museu público e como a fundação da museologia moderna. Apesar dos dramáticos avanços dos últimos anos, em muitos museus ainda persiste a óptica antiga, mas ela realmente não tem futuro no mundo contemporâneo globalizado e multi-referencial. Cabe, pois, a todas as instituições públicas que trabalham com acervos, procurar se adequarem às novas demandas, e torna-se claro que a administração de um museu é uma função que já não mais se limita à estética e à história e aos gostos particulares de administradores mais ou menos ilustrados, mas envolve uma multiplicidade de domínios do saber em perpétuo e criativo diálogo, e dialogando de maneira especialmente dinâmica com a sociedade que lhe dá srcem. Cristina Bruno sintetizou a transformação dizendo: “De instituições elitistas, colonizadoras, sectári as e excludentes, os museus têm procurado os caminhos da diversidade cultural, da repatriação das referências culturais, da gestão partilhada e do respeito à diferença de forma objetiva e construtiva. De instituições paternalistas e autoritárias, os museus têm percorrido os árduos caminhos do diálogo cultural e da convivência com o outro. De instituições isoladas e esquecidas, os museus têm valorizado a atuação em redes e sistemas, procurando mostrar a sua importância para o desenvolvimento socioeconômico. De instituições devotadas exclusivamente à preservação e comunicação de objetos e coleções, os museus têm assumido a responsabilidade por idéias e problemas sociais”.  (BRUNO, 2007) A museologia, pois, ciência tão nova, vem não obstante rapidamente se consolidando, ganhando prestígio e abrangência e influenciando decisões oficiais em larga escala. Atesta-o a recente aprovação, pelo governo brasileiro, do Estatuto de Museus , que estabelece claramente a necessidade de se profissionalizar e qualificar os agentes envolvidos na atividade museal e define penalidades concretas para o descumprimento das obrigações impostas. O exemplo dos grandes museus contemporâneos e as orientações de organismos reguladores internacionais, como o International Council of Museums (ICOM), ou nacionais, como o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), que representam a vanguarda museológica respectivamente no mundo e no Brasil, são os modelos a serem seguidos por todos os museus brasileiros. A criação e manutenção de um acervo de arte é uma tarefa trabalhosa, dispendiosa, complexa e ainda em processo de estudo e aperfeiçoamento. Muitas questões fundamentais ainda estão sendo discutidas pelos especialistas, e em muitas delas ainda não se formaram consensos ou regulamentações definitivas. Todo esse campo está em rápida expansão no Brasil, e nesta última década podemos nos orgulhar de termos conseguido uma ampla e excelente atualização em relação aos padrões e conceitos internacionais mais avançados. De fato o nosso país já desponta como uma liderança na América Latina, embora muitas vezes ainda não possamos implementar  3 efetiva e completamente nosso conhecimento pela crônica insuficiência de recursos que aflige a gestão cultural brasileira. O que é consenso é que o estudo, a atualização e o aperfeiçoamento devem ser contínuos, e as equipes que trabalham com acervos públicos têm sobre suas costas uma grande responsabilidade, pois o museu não é simplesmente um depósito inerte de obras, mas um organismo vivo que desempenha importantíssimo papel na evolução e educação da sociedade e na preservação, pesquisa e divulgação de sua memória. De acordo com a Política Nacional de Museus, os museus são “processos a serviço da sociedade”, e são instâncias fundamentais para o aprimoramento da democracia, da inclusividade social, da construção da identidade e do conhecimento e da percepção crítica da realidade. Na página seguinte se encontra um fluxograma resumido da peça desde a aquisição ao descarte:  4  5 Aquisição A aquisição de obras de arte em um acervo público é uma questão delicada, e de todas as que perfazem a administração de museus é certamente a mais crucial, sendo a que vai formar a base material da própria instituição. Cada museu adota sua própria política, mas, como foi dito, a cada dia crescem as exigências de especialização e profissionalismo. Neste sentido, no processo de aquisição de obras deve-se abandonar todo diletantismo, toda a pressa e toda a inconsequência, convocando-se a intervenção de conhecedores. Cada obra deve ser avaliada previamente por um curador competente, que fará suas escolhas em sintonia com a direção do museu, e de acordo com a política em vigor na instituição e com as normas e parâmetros internacionais que regem sua atuação. Assim, é essencial que desde o início se delineiem e consagrem formalmente os critérios de aquisição que o museu vai seguir, pois desta decisão emergirá o rosto da coleção e sua utilidade pública. Na maior parte dos grandes museus contemporâneos a avaliação prévia não é feita por apenas um indivíduo, o curador, mas por uma equipe curatorial, composta de vários membros qualificados, incluindo pelo menos um curador propriamente dito, um conservador/restaurador e um arte-educador, além do diretor da casa, o que minimiza em muito a possibilidade de erros de avaliação. É preciso pensar, ao se lançar a diretriz principal, em vários aspectos, entre eles: Que tipo de museu se vai constituir? É um museu temático? É um museu histórico, artístico, etnológico, etc? Que tipo de obra vai ser aceita? Há condições de conservar e exibir adequadamente a coleção? Há pessoal suficiente e preparado para geri-la? Qual o propósito da coleção? Como se pretende expandi-la? Que público se deseja atingir, e como se poderá fazer isso? Como o museu vai se apresentar e inserir na vida de sua comunidade? Quais laços se estabelecerão com outras instituições similares, pesquisadores, mantenedores, patrocinadores e parceiros, e como eles serão administrados? Nenhuma dessas perguntas pode ser respondida rápida e superficialmente, exige longa e madura meditação e minucioso planejamento, envolvendo um grande número de profissionais. Além disso, deve-se tentar projetar a atuação do museu no futuro, criando-se um plano geral que possa pelo menos em tese permanecer válido por um longo período, a fim de se evitar mudanças freqüentes de rumo que prejudicariam seu bom funcionamento e tornariam a filosofia da instituição confusa e irresponsável aos olhos do público e dos especialistas, perdendo prestígio e credibilidade. Isso não quer dizer que ao longo da história do museu não haja adaptações e atualizações em suas diretrizes fundamentais, mas uma linha curatorial e administrativa bem embasada e consolidada e razoavelmente estável é um elemento-chave na sua afirmação como instituição de respeito. Na administração de museus nada pode ser feito de improviso ou por impulso momentâneo, nem se deve receber obras indiscriminadamente, mesmo que sejam propostas como doação gratuita. E mais: o museu moderno não pode se limitar à recepção passiva de obras e deve buscar ativamente as peças de que precisa para cumprir seus objetivos. O avaliador ou avaliadores devem levar em conta em suma a qualidade artística da peça, a importância de seu autor, seu estado de conservação, seu custo de aquisição e manutenção para a instituição, a capacidade técnica da casa em preservá-la e expô-la como deve, sua origem e sua pertinência para o perfil curatorial do acervo que se deseja reunir. Mas, como orientação geral, alguns critérios básicos podem ser desde logo adotados pela maior parte dos museus de arte, quais sejam:
Related Documents
View more...
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks