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Competitividade inter-regional de sistemas de produção de bovinocultura de corte

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Competitividade inter-regional de sistemas de produção de bovinocultura de corte
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  Competitividade inter-regional de sistemas de produção de bovinocultura de corte. Ciência Rural, v.43, n.8, ago, 2013. 1489 Competitividade inter-regional de sistemas de produção de bovinocultura de corte Interregional competitiveness of the beef cattle production systemRicardo Pedroso Oaigen I*  Júlio Otávio Jardim Barcellos II  Maria Eugênia Andrighetto Canozzi II  Jean Carlos dos Reis Soares II  Leonardo Canali Canellas II  Carine Oliveira Alves I  Heliton Ribeiro Tavares III  Fabricio Martins da Costa IV ISSN 0103-8478   Ciência Rural, Santa Maria, v.43, n.8, p.1489-1495, ago, 2013 Recebido 23.01.13 Aprovado 19.03.13 Devolvido pelo autor 10.06.13CR-2013-0092 RESUMO O trabalho apresenta uma metodologia de avaliação de sistemas de produção através da mensuração da competitividade interna na bovinocultura de corte. Durante o primeiro trimestre de 2010, foram aplicados 65 questionários com pecuaristas, sendo 36 entrevistas na Região Sul (Estado do Rio Grande do Sul) e 29 na  Região Norte (Estados do Pará e Rondônia). Foram definidos os  principais direcionadores que afetam a competitividade interna - tecnologia, gestão, relações de mercado e ambiente institucional,  sendo atribuído um peso específico para cada direcionador, a fim de obter o índice de competitividade. Os resultados foram analisados estatisticamente pela teoria de resposta ao item e pela análise de correspondência (ANACOR) com o software SPSS  ® . A Região Sul apresentou uma maior competitividade que a Região Norte.  Independente da região, os fatores críticos de competitividade  foram: integração lavoura-pecuária, planejamento estratégico, cálculo de indicadores financeiros, formação de preços, acesso a inovações tecnológicas e organização dos produtores. Palavras-chave :   agronegócio, bovinocultura, cadeia produtiva, competitividade, sistemas de produção. ABSTRACT This paper presents a methodology for evaluating  production systems by measuring the intern competitiveness of in beef cattle. During the first quarter of 2010, questionnaires were administered to 65 farmers, 36 interviews in the Southern Region (State of Rio Grande do Sul) and 29 in the Northern Region (States of Pará and Rondônia). Defined the key drivers that affect the international competitiveness - technology, management, market relations and institutional environment, an specific weight was assigned to each in order to get the index of competitiveness. The results were statistically analyzed by the item response theory and the correspondence analysis (ANACOR) with the SPSS  ®  software. The South was more competitive than the North. Regardless of region, the critical factors of competitiveness were: crop-livestock integration, strategic planning, calculation of financial indicators, beef pricing, access to technological innovations and organization of farmers. Key words : agribusiness, beef cattle, productive chain, competitiveness,  production system. INTRODUÇÃO A bovinocultura de corte brasileira tem passado por mudanças estruturais e conjunturais, sobretudo no uso de tecnologias agropecuárias, no aumento das exportações de carne e na distribuição geográfica do rebanho. Essas transformações  permitiram expansões significativas do rebanho para as Regiões Centro-Oeste e Norte, devido à competição por áreas para agricultura no Sudeste e Sul do Brasil. Dentro desse contexto, estudos que mensurem a competitividade de sistemas agroindustriais passaram a ser fundamentais (VAN DUREN et al., 1991; SILVA & BATALHA, 1999). Dentre as definições de competitividade, a que melhor se aplica é como sendo a capacidade sustentável de sobreviver e, de preferência, crescer nos mercados concorrentes ou em novos mercados, através de um sistema de informações capaz de suprir as necessidades gerenciais derivadas do planejamento I Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade Federal do Pará (UFPA), Avenida Universitária S/N, Bairro Jaderlândia, 68745-000, Castanhal, PA, Brasil. E-mail: oaigenricardo@ufpa.br. *Autor para correspondência. II Departamento de Zootecnia, Faculdade de Agronomia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil. III Instituto de Ciências Exatas e Naturais, Universidade Federal do Pará (UFPA), Belém, PA, Brasil. IV Departamento de Matemática Estatística e Informática, Universidade Estadual do Pará (UEPA), Belém, PA, Brasil.  1490 Oaigen et al. Ciência Rural, v.43, n.8, ago, 2013. de longo prazo (CALLADO & MORAES FILHO, 2008). Para isso, a sua determinação pode ser realizada com o uso de fatores sistêmicos (ambiente concorrencial), estruturais (relativos ao mercado) e internos (relativos à empresa) (SILVA, 2004).A formulação e a implementação de estratégias são influenciadas por fatores externos e internos às empresas. Os fatores empresariais (internos) são aqueles em que a empresa tem poder de decisão e referem-se ao estoque de recursos acumulados pela empresa; os estruturais (internos e/ou externos) são aqueles em que a capacidade de intervenção da empresa é limitada; e, por fim, os sistêmicos (externos) constituem externalidades strictu sensu  para a empresa, a qual detém escassa ou nenhuma possibilidade de intervir (KUPFER & HASENCLEVER, 2002).Nesse sentido, este estudo objetiva propor e validar uma metodologia que mensure e compare a competitividade interna da bovinocultura de corte em diferentes regiões, a fim de evidenciar ações prioritárias que devem ser tomadas para maximizar as vantagens competitivas regionais, uma vez que as pesquisas anteriores são genéricas, no sentido de englobar toda a cadeia produtiva. Esse tipo de análise permitirá suprir uma lacuna de métodos de aferição da eficiência dos sistemas de produção pecuários, que permita comparar diferentes sistemas produtivos. Além disso, poderá, no futuro, ser adaptada para outras cadeias produtivas na produção animal. MATERIAL E MÉTODOS O trabalho teve início com um roteiro de entrevistas realizadas com pecuaristas, durante o primeiro trimestre de 2010, nas Regiões Norte (29 propriedades nos Estados do Pará e Rondônia) e Sul (36 propriedades no Estado do Rio Grande do Sul), totalizando 65 produtores. A metodologia aplicada foi baseada numa síntese de procedimentos utilizados em diagnósticos e modelos conceituais de cadeias produtivas, cujo foco era o estudo da competitividade da cadeia produtiva da carne bovina (SILVA & BATALHA, 1999; IEL/CNA/SEBRAE, 2000; BATALHA, 2007; FAMATO/FABOV, 2007). A pesquisa em questão é específica para os sistemas de produção, sendo este um avanço e/ou inovação proposto pelo presente estudo, referenciada por trabalhos que utilizaram o enfoque sistêmico do produto ( commodity system approach ) e o gerenciamento da cadeia de suprimentos ( supply chain management  ) para análise de cadeias produtivas agroindustriais (SILVA & BATALHA, 1999; IEL/ CNA/SEBRAE, 2000; SENAR/SEBRAE/FARSUL, 2005; BATALHA, 2007; FAMATO/FABOV, 2007). Inicialmente, foram definidos os principais direcionadores que afetam a competitividade interna, sendo: tecnologia (TE), gestão (GE), relações de mercado (RM) e ambiente institucional (AI) (SILVA & BATALHA, 1999). A partir da definição dos direcionadores, houve um desdobramento em 31 fatores (Tabela 1). Os direcionadores TE, GE, RM e AI foram constituídos por dez, dez, quatro e sete  Competitividade inter-regional de sistemas de produção de bovinocultura de corte. Ciência Rural, v.43, n.8, ago, 2013. 1491 fatores, respectivamente, sendo atribuído um peso específico para cada um deles, a fim de determinar o índice de competitividade (IC).O questionário apresentava quatro perguntas para cada fator. As respostas poderiam ser positivas ou negativas. Quanto maior o número de respostas positivas, maior o grau de competitividade do fator, do respectivo direcionador e, consequentemente, do IC. Atribuíram-se, ainda, pesos diferenciados aos fatores, em virtude do grau de importância para o direcionador. Com esse  procedimento, a avaliação final dos direcionadores foi dada pela equação 1: (1) em que ND i  é avaliação final do direcionador i; NF  j  é a nota dada ao fator j; PF  j  é o peso atribuído ao fator  j; PD i  é o peso atribuído ao direcionador i.As notas dos fatores (NF  j ) foram obtidas a partir das respostas dos entrevistados (equação 2). O percentual de acerto (PA  j ) de cada resposta e o peso (PF  j ) atribuído determinaram a nota de cada fator. (2)Os fatores foram avaliados a partir da quantidade de respostas positivas, utilizando a escala  Likert  . O critério utilizado para qualificar a resposta e determinar o percentual de acertos foi: MF– muito favorável: quatro respostas positivas (100%); F– favorável: três respostas positivas (75%); N– neutro: duas respostas positivas (50%); D– desfavorável: uma resposta positiva (25%); MD– muito desfavorável: nenhuma resposta positiva (0%).Posteriormente, foi srcinada uma nova equação (equação 3) para calcular o IC de cada sistema de produção e posterior mensuração da média aritmética da amostra. IC = ND tecnologia + ND gestão + ND relações de mercado + ND ambiente institucional  (3)Na equação 3, os direcionadores tecnologia e gestão contribuíram, cada um, com 3,5; relações de mercado, com 2,0; e ambiente institucional, com 1,0. Os direcionadores TE e GE, os quais dependem em maior grau da ação do pecuarista, da sua atitude empresarial e do nível de controle, receberam maiores pesos, sendo definidos como fatores internos de competitividade, enquanto que os demais, RM e AI, foram definidos com fatores externos (KUPFER & HASENCLEVER, 2002). A classificação final do IC foi obtida a partir do seguinte critério: MF-IC>8,0; F-6,0<IC≤8,0; N-4,0<IC≤6,0; D-2,0<IC≤4,0; MD-IC≤2,0. O tratamento estatístico dos resultados envolveu a utilização da teoria de resposta ao item (TRI), por permitir comparar populações diferentes que foram submetidas ao mesmo tipo de avaliação (ANDRADE et al., 2000). Também foi utilizada a análise de correspondência (ANACOR) para identificação de associações entre os direcionadores e fatores com o respectivo grau de competitividade,  permitindo representar graficamente a natureza das relações existentes entre as variáveis. Foi necessária a realização do teste do qui-quadrado para avaliação da dependência das observações para um P<0,05 (MANGABEIRA et al., 2002). RESULTADOS Os sistemas de produção podem ser caracterizados como grandes propriedades, pois 80% possuíam mais de 900 hectares. As principais atividades, em parceria com a bovinocultura de corte, foram as lavouras de arroz e/ou soja na Região Sul e a bovinocultura leiteira no Norte. O grau de instrução do pecuarista foi superior no Sul, uma vez que 70% possuíam graduação, 18% pós-graduação e 12% ensino médio, enquanto que no Norte 31% possuíam graduação, 10% pós-graduação, 38% ensino médio e 21% ensino fundamental. Nas duas regiões, a imensa maioria (92%) dos produtores trabalha, exclusivamente, na propriedade rural. O valor do IC médio foi de 7,31 (F) e 5,32 (N) e, com relação aos direcionadores, os valores foram para TE 7,88 (F) e 6,02 (N), GE 6,65 (F) e 5,11 (N), RM 6,06 (F) e 5,12 (N) e AI 6,51 (F) e 4,96 (N) para as Regiões Sul e Norte, respectiv amente. As análises de correspondência dos 31 fatores, em seus respectivos direcionadores, para as duas regiões analisadas, estão ilustradas na figura 1. É importante destacar que cada fator é representado pelo caractere “I”, seguido de sua respectiva numeração, de acordo com a tabela 1. No direcionador tecnologia, a integração lavoura pecuária (I4) foi associada com o grau de competitividade MD, sobretudo na Região Norte. Na Região Sul, o fator I4 também apresentou uma maior proximidade com o grau MD, pois 10% dos sistemas de produção foram classificados com um menor grau de competitividade para esse item. Em relação à gestão técnico-financeira, a realidade mostrou-se distinta nas duas regiões. Enquanto que na Região Sul o índice de competitividade apresentou um grau F, na Região Norte a realidade é crítica, visto que 24,1% dos sistemas de produção foram classificados como D.  1492 Oaigen et al. Ciência Rural, v.43, n.8, ago, 2013. Figura 1 - Análise de correspondência dos fatores, dentro do seu respectivo direcionador, em sistemas de produção de bovinocultura de corte nas regiões Sul (a) e Norte (b) do Brasil. MD: muito desfavorável; D: desfavorável; N: neutro; F: favorável; MF: muito favorável.  Competitividade inter-regional de sistemas de produção de bovinocultura de corte. Ciência Rural, v.43, n.8, ago, 2013. 1493 Um fator de competitividade da gestão que merece uma atenção especial é o planejamento estratégico (I4): nas duas regiões esse foi um fator que apresentou relação com o grau MD. Os fatores informatização (I9/GE) e cálculo de indicadores financeiros (I6/GE) também ficaram aquém do desejado em ambas as regiões. Referente ao direcionador relações de mercado, a relação produtor-fornecedor (I1/RM) foi classificada positivamente nas Regiões Norte e Sul. O fator diferenciação de produtos (I4/RM) foi considerado favorável na Região Sul e neutro da Região Norte. Os demais fatores, relação produtor- frigorífico (I2/RM) e formação de preços (I3/RM), apresentaram um desempenho negativo em ambas as regiões, sobretudo I3, que apresentou uma associação com o grau de competitividade MD e D na Região Sul. Por fim, no ambiente institucional, os fatores críticos nas duas regiões foram o acesso a inovações tecnológicas (I1) e a organização dos produtores rurais (I7). Existe uma associação entre o grau de competitividade D e a legislação oficial e regularização fundiária (I6/AI) e a política de crédito agropecuário (I4/AI), ao contrário da Região Sul, que apresentou grau de competitividade MF para esses mesmos fatores. DISCUSSÃO A maior integração com a agricultura relatada para a Região Sul é um importante fator de competitividade, pois proporciona a maximização do uso de recursos para o aumento da produtividade e rentabilidade dos sistemas de produção. Essa situação de maior competitividade é devido a uma maior especialização, até mesmo pela proximidade de centros de desenvolvimento e difusão do conhecimento. No entanto, a conjuntura atual mostra que a bovinocultura de corte no Sul do país vem perdendo espaço para outras atividades (lavouras agrícolas e reflorestamento), consequência da maior rentabilidade dessas. Na Região Norte, ocorreu uma colonização recente há, aproximadamente, quatro décadas, por imigrantes que vieram de outras regiões do país. A pecuária amazônica evoluiu pelos campos e cerrados, sendo inicialmente destinadas à criação de gado bovino para consumo regional (CEPEA, 2002). Posteriormente, houve um acentuado crescimento do uso de pastos cultivados, formados por gramíneas bem adaptadas, principalmente as espécies de  Braquiária   spp. O aumento do uso de tecnologias de produção, em ambas as regiões, está relacionado aos trabalhos desenvolvidos em instituições de pesquisa e ensino em áreas de genética, sanidade, reprodução animal, nutrição e manejo de pastagens tropicais e subtropicais (EUCLIDES FILHO, 2007). Apesar do aumento na produção de carne e na produtividade dos sistemas de produção, o potencial dessa atividade está muito aquém do real. O pecuarista necessita aperfeiçoar sua capacidade de gestor do negócio, já que a grande maioria das empresas rurais desconhece seu custo de produção ou não mensura seus indicadores técnico- financeiros (OAIGEN & BARCELLOS, 2008). O gerenciamento da informação, objetivando a tomada de decisões precisa, maximiza o aproveitamento dos recursos disponíveis e a lucratividade da atividade. A questão do desconhecimento de custos de produção foi constatação recorrente com agentes da cadeia, assim como falta de planejamento, baixa adequação da mão de obra das propriedades, tanto em nível operacional como gerencial, e deficiências nos controles zootécnicos dos rebanhos (IEL/CNA/ SEBRAE, 2000). Em relação ao ambiente organizacional interno das empresas, o planejamento estratégico deve ser baseado em três fatores: gestão (estratégia do negócio, estratégia de operações e foco gerencial), tecnologia (produto, processo e informação) e pessoas (qualificação, liderança, conhecimento, aprendizado e cultura) (DI SERIO & VASCONCELLOS, 2008). Para isso, é fundamental a existência de pessoas capacitadas e que saibam utilizar os recursos provenientes dessa inovação (internet, softwares , planilhas, etc.). A busca por uma maior coordenação da cadeia produtiva da carne bovina é uma das metas principais dos órgãos públicos e privados. Entretanto, no mercado da carne bovina, predominam estruturas oligopolísticas a montante da produção agropecuária e oligopsônicas a jusante (ARAÚJO, 2005), ou seja, os pecuaristas rurais são tomadores de preços, mas não conseguem formar preços para seus produtos. Além disso, essa cadeia é caracterizada pela assimetria de informações entre os elos, o que, consequentemente, traz conflitos e relações oportunistas entre seus atores,  principalmente, entre frigoríficos e produtores rurais (MALAFAIA et al., 2009). A avaliação do impacto do ambiente externo sobre os sistemas de produção foi desfavorável para as questões envolvendo tributação excessiva, falhas na política sanitária e condições precárias de financiamento (crédito agropecuário). Outras áreas que merecem atenção devido ao impacto negativo referem-se às condições macroeconômicas, informações
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