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A cronologia absoluta para o Castro dos Ratinhos: Datas de Radiocarbono.

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A cronologia absoluta para o Castro dos Ratinhos: Datas de Radiocarbono.
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  5.10. A cronologia absoluta para o Castro dos Ratinhos: Datasde Radiocarbono António M. Monge Soares e José M. Matos Martins 59 1. Introdução A análise da estratigrafia e dos conjuntos artefactuais associados, bem como dosvestígios arquitectónicos preservados, mostraram claramente a existência de duasgrandes fases de ocupação no Castro dos Ratinhos – a primeira, Fase 2, é atribuívelao Bronze Final do Sudoeste, enquanto que a que se lhe segue, Fase 1, semaparentemente qualquer hiato temporal a separá-la da precedente, integra-se no FerroAntigo (Berrocal-Rangel e Silva, 2007; ver, também, Capítulo 3.1 deste volume). Quaisquerdestas duas grandes fases de ocupação é susceptível de ser subdividida: a Fase 2, nasFases 2c, 2b e 2a (em ordem decrescente de antiguidade), e a Fase 1, nas Fases 1b e1a, sendo esta última a mais recente.Ao longo da intervenção arqueológica de campo, levada a cabo de 2004 a 2007,foi possível recolher diversas amostras de materiais orgânicos (madeira carbonizadaou ossos) susceptíveis de datação pelo radiocarbono. Destas amostras, dez foram jádatadas no Laboratório de Radiocarbono do ITN, em Sacavém. Os resultados obtidospermitem lançar alguma luz sobre a cronologia absoluta para a Proto-História doSudoeste e serão objecto de discussão mais adiante.Como nota prévia a essa discussão deverá referir-se que, para a época em causa,designadamente para o Período Orientalizante, e ainda para muitos arqueólogos duascronologias se confrontam: a cronologia “tradicional”, “histórica” ou “arqueológica”,resultante de datações cruzadas, e a cronologia do radiocarbono, resultante da aplicaçãodeste método de datação absoluta a amostras provenientes de contextos atribuíveisao Ferro Antigo (veja-se, por ex., Arruda, 1999-2000, p. 16). Em publicação anterior, apropósito da apresentação de uma série de datações de radiocarbono para a ocupaçãoorientalizante da Quinta do Almaraz (Barros e Soares, 2004), foi realizado um tratamentoestatístico para as mais de 50 datas de radiocarbono conhecidas então para contextosfenícios e orientalizantes da Península Ibérica, o que evidenciou, tal como Torres Ortiz(1998) já o tinha feito utilizando uma outra aproximação, uma diferença significativaentre as duas cronologias. Esta avaliação crítica dos dados em causa levaram os autoresa afirmar: “ A utlização da denominada cronologia “tradicional” ou “histórica” ou “arqueológica”não tem razão de ser e pode conduzir a confusões e erros grosseiros ” (Barros e Soares, 2004,p. 351). As descobertas de Huelva (González de Canales et al. , 2004, 2006), datadastambém pelo radiocarbono (Nijboer e van der Plicht, 2006), confirmam a necessidadedo abandono desta “cronologia” e, como veremos a seguir, também a evidência obtidapara a cronologia dos Ratinhos aponta na mesma direcção. 2. As datas de radiocarbono para os Ratinhos As 10 datas de radiocarbono já obtidas apresentam-se na Tabela 24. As Fases erespectivos contextos estratigráficos donde provêm as amostras datadas encontram--se também indicados na Tabela. Verifica-se que apenas uma amostra provem de umcontexto atribuível ao Bronze Final (Fase 2a ou 2b), enquanto três amostras estavam Suplemento n.º 6 a O Arqueólogo Português, 2010 409 O Castro dos Ratinhos. Escavações num povoado proto-histórico do Guadiana 59 Laboratório de Radiocarbono, Instituto Tecnológico e Nuclear.  associadas a contextos da Fase Ib e as restantes seis à Fase Ia, a mais recente e últimado Ferro Antigo dos Ratinhos. A calibração das datas convencionais foi realizadafazendo uso da curva de calibração IntCal04 (Reimer et al., 2004) e do programa OxCal4.1.03 (Bronk Ramsey, 2001, 2008).Para uma pesquisa de eventuais outliers e para uma interpretação correcta dosresultados obtidos, explorando a possibilidade de uma redução válida dos intervalosassociados às datas calibradas, utilizou-se uma estatística bayesiana a partir doprograma OxCal 4.1.03. Para a aplicação desta estatística, construiu-se um modelotendo em conta duas condicionantes (constrangimentos): i . A série de datas dos Ratinhos distribui-se pela sequência estratigráfica já referidaanteriormente e indicada na Tabela 24, isto é, as datas Sa-2288, 2323 e 2324 (Fase1b) correspondem a amostras de contextos arqueológicos cronologicamente posterioresao contexto donde provem a amostra que deu a data Sac-2230, mas cronologicamenteanteriores aos contextos donde provêm as amostras que srcinaram as restantesdatas (Fase 1a). Esta condicionante não é mais do que a aplicação/tradução do registoda evidência arqueológica observada na intervenção levada a cabo nos Ratinhos. ii. A fronteira entre o Bronze Final e Ferro Antigo/Orientalizante é fixada em 825 a.C.Este valor foi proposto em Barros e Soares (2004) e resulta, não só do tratamentoestatístico aplicado às mais de 50 datas de radiocarbono já determinadas paracontextos fenícios e orientalizantes peninsulares, mas também da cronologia absolutaobtida para os contextos orientalizantes da Quinta do Almaraz, no estuário do Tejo.Deverá notar-se que esta última condicionante pouca importância tem nodesenvolvimento do modelo, na medida em que a data Sac-2230, além de um elevadodesvio-padrão, é a única até agora obtida para um contexto do Bronze Final dos 410 Suplemento n.º 6 a O Arqueólogo Português, 2010 Luis Berrocal-Rangel e António Carlos Silva ReferênciaContextoFaseTipo de Amostra  δ 13 C (‰)DataData Calibrada Data CalibradaLaboratórioEstratigráficoConvencional (BP)cal BC (1 σ  )cal BC (2 σ  ) Sac-2230M3/IId2a ou 2bMadeira – 23,742820±901120 – 890 (64,5 %);1260 – 1230 (2,0 %);Carbonizada870 – 850 (3,7 %)1220 – 810 (93,4 %)Sac-2288M2/IIc1bMadeira Carbonizada-25,912660±40850 – 790 (68,2 %)910 – 780 (95,4 %)Sac-2323CI/IIa1bOssos (Colagéneo)-21,662570±35810 – 750 (57,2 %);810 – 740 (61,6 %);690 – 660 (11,0 %)690 – 660 (13,5 %);650 – 550 (20,3 %)Sac-2324B1/Ic1bOssos (Colagéneo)-20,102550±45800 – 740 (31,6 %);810 – 530 (95,4 %)690 – 660 (12,2 %);650 – 590 (21,3 %);580 – 560 (3,2 %)Sac-2340C2/Ib1aOssos (Colagéneo)-21,402750±60980 – 950 (6,8 %);1050 – 800 (95,4 %)940 – 820 (61,4 %)Sac-2318M3/Ic1aMadeira Carbonizada-252580±120840 – 520 (68,2 %)980 – 400 (95,4 %)Sac-2341B1/1b1aOssos (Colagéneo)-20,062580±50820 – 750 (46,4 %);840 – 530 (95,4 %)690 – 660 (10,0 %);640 – 590 (11,7 %)Sac-1978A4/Ie1aMadeira Carbonizada-252530±80800 – 720 (22,1 %);810 – 410 (95,4 %)700 – 540 (46,1 %)Sac-1979A1/IIa1aOssos (Colagéneo)-24,802500±50780 – 720 (15,1 %);800 – 480 (89,8 %);700 – 540 (53,1 %)470 – 410 (5,5 %)Sac-2229R1/Ie1aMadeira Carbonizada-22,152490±80770 – 520 (68,2 %)790 – 410 (95,4 %)  Tabela 24: Datas de radiocarbono para o Castro dos Ratinhos  Ratinhos. Quer se introduza ou não esta condicionante, as conclusões principais não sofrem qualquer alteração importante. Por outro lado, seria relevante oestabelecimento de uma fronteira estreita para o fim da Fase 1a, uma vez que as datasde radiocarbono determinadas para esta fase, com excepção da Sac-2340 (que é um outlier , como será referido adiante), estão englobadas na denominada “catástrofe daIdade do Ferro” quando se pretende calibrá-las. Na falta de uma fase subsequente,datada pelo radiocarbono, poderíamos ter estabelecido essa fronteira fazendo uso dacronologia “tradicional” que, para essa altura, estará, porventura, menos afastada dacronologia absoluta do radiocarbono do que no início do Período Orientalizante.Preferimos, no entanto, deixar esta questão em aberto à espera que novas escavaçõesnos Ratinhos e em outros povoados do Sudoeste proporcionem mais dados de cronologiaabsoluta.Pela aplicação do modelo assim definido verifica-se que a data Sac-2340 é um outlier . Neste modelo o valor mínimo de concordância aceitável é de 60,0 % – para adata em causa o valor obtido foi de 1,6 %.Uma vez retirada esta data da sequência representada no modelo obtêm-se asdatas calibradas constantes da Tabela 25 e a representação gráfica da Figura 180. 3. Discussão dos resultados A aplicação da estatística bayesiana ao modelo revelou um nível de concordânciaglobal entre os dados utilizados bastante alto, de 118,7 %. Foi assim possível, a partir Suplemento n.º 6 a O Arqueólogo Português, 2010 411 O Castro dos Ratinhos. Escavações num povoado proto-histórico do Guadiana FaseReferência Data Convencional (BP)Data CalibradaData CalibradaLaboratóriocal BC (1 σ  )cal BC (2 σ  ) 2a ou 2bSac-22302820±901120 – 890 (65,0 %);1260 – 1230 (1,6 %);870 – 840 (3,2 %)1220 – 820 (93,8 %) Fronteira (imposta) Bronze Final/Ferro Antigo: 825 a.C. 1bSac-22882660±40830 – 800 (68,2 %)830 – 790 (95,4 %)1bSac-23232570±35800 – 770 (68,2 %)820 – 740 (91,6 %);690 – 660 (3,8 %)1bSac-23242550±45800 – 750 (68,2 %)820 – 660 (95,4 %) Soma das distribuições820 – 770 (68,2 %)830 – 740 (92,7%);de probabilidade (Fase 1b)690 – 670 (2,7 %) 1aSac-23402750±60*1aSac-23182580±120770 – 510 (68,2 %)780 – 410 (95,4 %)1aSac-23412580±50780 – 750 (12,2 %);800 – 710 (22,7 %);690 – 660 (16,5 %);700 – 520 (72,7 %)650 – 550 (39,6 %)1aSac-19782530±80770 – 730 (7,5 %);780 – 480 (85,8 %);700 – 520 (60,7 %)470 – 410 (9,6 %)1aSac-19792500±50760 – 730 (7,2 %);780 – 480 (88,3 %);700 – 530 (61,0 %)470 – 410 (7,1 %)1aSac-22292490±80750 – 710 (7,2 %);770 – 410 (95,4 %)700 – 500 (58,6 %);440 – 420 (2,5 %) Soma das distribuições 780 – 730 (10,3 %);780 – 480 (86,9 %);de probabilidade (Fase 1a)700 – 530 (57,9 %)470 – 410 (8,5 %)  Tabela 25: Calibração das datas de radiocarbono do Castro dos Ratinhos, fazendo uso do modelo referido no texto (ver tambémFig. 180).* Outlier   da soma das distribuições de probabilidade das datas correspondentes a cada umadas Fases do Ferro Antigo dos Ratinhos, determinar os seguintes valores para a duraçãodessas Fases (considerando um intervalo de confiança de 95,4 %):Fase 1b830 – 740 cal BCFase 1a 780 – 410 cal BCque merecem os seguintes comentários: i) para a Fase 1b, o limite de 830 cal BC resultade termos estabelecido a fronteira cronológica de 825 a.C. para a passagem do BronzeFinal ao Ferro Antigo; se não tivéssemos estabelecido este constrangimento no modelo,o limite que se obteria seria, contudo, muito próximo deste de 830 cal BC (ver Tabela25); ii) o limite superior de 740 cal BC para a duração da Fase 1b resulta de não termosconsiderado o intervalo 690-670 cal BC (ver Tabela 2), mas deverá notar-se que aprobabilidade que lhe corresponde, para um intervalo de confiança de 2 σ  , é de apenas 412 Suplemento n.º 6 a O Arqueólogo Português, 2010 Luis Berrocal-Rangel e António Carlos Silva Fig. 180. Representação gráfica das distribuições de probabilidade das datas de radiocarbono calibradas dos Ratinhos após umaanálise “bayesiana” fazendo uso do programa OxCal 4.1.03  2,7 % , o que torna admissível a opção tomada; iii) para a Fase 1a, o limite superiorde 410 cal BC resulta do andamento da curva de calibração (região da “catástrofe daIdade do Ferro”) e de não termos querido introduzir qualquer fronteira no modelo parao final da ocupação do Ferro Antigo nos Ratinhos, como atrás se justificou; deverá,no entanto, ter-se em conta que a Fase 1a terá tido uma duração curta, como se deduzdo que está publicado (Berrocal-Rangel e Silva, 2007, p. 172), e, por conseguinte, nãoultrapassará os finais do séc. VIII a.C.; iv) a fronteira cronológica entre as Fases 1b e1a ficou bem estabelecida, e com relativa precisão, em cerca de 780-740 cal BC ou,por outras palavras, poder-se-á afirmar que a transição da Fase 1b para a 1a teráocorrido em meados do séc. VIII a.C.Quanto à ocupação do Bronze Final dos Ratinhos, apenas dispomos de uma data.O modelo que utilizámos para estabelecermos um esqueleto cronológico para asocupações dos Ratinhos não introduz qualquer mais valia no que à cronologia doBronze Final diz respeito. A data Sac-2230 está dentro do que era expectável para umcontexto do Bronze Final do Sudoeste. Apesar disso, deverá ter-se presente que o jargão,bem conhecido no mundo da datação pelo radiocarbono, “uma data não é data” temtoda a razão de ser. 4. Conclusões A continuação da intervenção arqueológica no Castro dos Ratinhos reveste-se degrande importância no estabelecimento de uma cronologia absoluta para os seuscontextos atribuíveis ao Bronze Final. Embora o panorama relativo à cronologia absolutapara esta época no Sudoeste Peninsular se tenha modificado nos últimos anos (Soares,2005, 2007), continua ainda a existir uma escassez muito grande de contextos bemcaracterizados do Bronze Final datados pelo radiocarbono. Um esforço na dataçãodesses contextos dos Ratinhos, os quais têm normalmente associados a si um riquíssimoacervo artefactual, deverá resultar numa clarificação da cronologia para o Bronze Finaldo Sudoeste nas suas subfases e uma precisão dessa mesma cronologia na evoluçãotecnológica e cultural observável no registo arqueológico, designadamente no referenteà metalurgia ou, por exemplo, no aparecimento, expansão e declínio do uso da cerâmicade ornatos brunidos.Quanto aos contextos do Ferro Antigo dos Ratinhos, provou-se que a aproximaçãorealizada à sua cronologia, fazendo uso da estatística bayesiana, permitiu ultrapassaro problema da “catástrofe da Idade do Ferro” na curva de calibração e situar comprecisão a idade que lhes deve ser atribuida. Por outro lado, a incompatibilidade entrea cronologia “tradicional” ou “histórica” e a cronologia do radiocarbono também sedeverá realçar, tendo em conta os dados obtidos para os Ratinhos. Assim, as datas deradiocarbono já obtidas para a ocupação sidérica indicam que as primeiras manifestaçõesatribuíveis à Idade do Ferro nesse povoado (Fase 1b) surgem nos finais do séc. IX eprolongam-se até meados do VIII, enquanto que a Fase seguinte (Fase 1a) se desenvolvedurante a segunda metade do séc. VIII terminando, provavelmente, antes do finaldesse século. Suplemento n.º 6 a O Arqueólogo Português, 2010 413 O Castro dos Ratinhos. Escavações num povoado proto-histórico do Guadiana
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