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A CISÃO DA ÉTICA E DA POLÍTICA NO CONTEXTO SOCIAL DA MODERNIDADE

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Solicita-se, por favor, citar a referência: Revista Tempo Brasileiro, RJ, nº 154, p. 17-50 Introdução O debate histórico e historiográfico dos últimos quarenta anos tem sido centrado principalmente numa série de categorias que tem atraído a maior
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  A CISÃO DA ÉTICA E DA POLÍTICA NO CONTEXTO SOCIAL DAMODERNIDADE Solicita-se, por favor, citar a referência: Revista Tempo Brasileiro, RJ, nº 154, p. 17-50  Introdução O debate histórico e historiográfico dos últimos quarenta anos tem sido centrado principalmente numa série de categorias que tem atraído a maior parte dos estudos. Dentreelas, vale a pena destacar a idéia de ruptura e o conceito de Estado.Desde os anos trinta, a obra de aio !rado "únior tem sido um ponto de refer#ncia para grande parte dos estudos históricos sobre a modernidade brasileira e, por conseq$#ncia, européia. omo decorr#ncia das suas proposi%&es sobre a coloni'a%(o portuguesa, uma série de estudos, principalmente a partir da década de )*, aprofundaramsuas idéias e elaboraram um marco teórico, denominado com propriedade por +ernando ovais de -sistema colonial. / partir desse modelo foram analisadas as rela%&es de poder, presente nas estruturas sociais, econ0micas, políticas e estruturais que caracteri'aram asrela%&es entre a col0nia e a metrópole e, de maneira mais abrangente ainda, as rela%&esentre a /mérica e a Europa.Esse modelo tem sido até ho1e um dos marcos teóricos n(o apenas dos estudoshistoriográficos, mas também um ponto de refer#ncia no ensino da 2istória n(o só no nívelsecundário, mas nos cursos superiores, principalmente na 3niversidade de 4(o !aulo, ondese pode constatar a grande influ#ncia desses pensadores nas diferentes áreas doconhecimento histórico, quer se1a nos estudos de 5rasil colonial e independente ou de2istória 6bérica e 2istória 7oderna.8odos esses estudos e análises tiveram o mérito de chamar a aten%(o para umarealidade específica, a econ0mica, e para a base de sustenta%(o das rela%&es estabelecidasentre a col0nia e a metrópole, por meio da e9plora%(o do trabalho e do capital.ontudo, há muitas outras quest&es que podem ser analisadas quando nosdebru%amos sobre a história moderna. O trabalho do historiador é um trabalho de certaforma tributário daquele princípio que os antigos retóricos afirmavam como básico para :  assuntos tais como a realidade contingente e histórica, que n(o pode ser apreendida por umúnico ponto de vista. 8oda a realidade histórica se nos apresenta como uma imensa rede derela%&es, como um palimpsesto, gostam de di'er alguns historiadores, que sempre nos permite olhar para a história -desde um outro ponto de vista. esse sentido ;se1a<me permitido o trocadilho<, falar de -o sentido da coloni'a%(o pode aparecer, principalmentedepois de tantos anos de história e historiografia, como algo relevante, porém, n(o único, 1áque, como dissemos, sempre poderemos situar<nos num outro lugar ;num outro -toposdiriam os gregos< e, a partir daí, tentar elaborar um outro discurso que, em tese, n(o teria por que ser nem melhor, nem pior do que o anterior. 4implesmente seria isso mesmo= umoutro discurso, estabelecido a partir de um outro lugar, e que nos permitiria olhar para amesma realidade que foi estudada focali'ando outros aspectos, também relevantes. 4eassim n(o fosse, o discurso da 2istória seria um discurso fechado. 3ma ve' estabelecido-o sentido, tudo estaria 1á dito./ finalidade deste artigo n(o é a de estabelecer -o sentido da coloni'a%(o. O queeste trabalho procura é analisar as rela%&es entre col0nia e metrópole no momento inicial da7odernidade, dentro de um outro par de categorias que, precisamente pelas circunst>nciasque o momento atual do !aís está atravessando ?afinal, o historiador quando pensa eescreve sobre o passado, o fa' a partir do seu próprio presente@, e que pode dar conta de umoutro aspecto dessas rela%&es que nem sempre foram levadas em conta. Esse par decategorias é a tens(o entre Atica e !olítica./o afirmar que nem sempre foram levadas em conta, n(o quero di'er com isso quen(o se tenha falado dessas quest&es. 7uito pelo contrário. +alou<se e muito sobre o tema,especialmente por parte dos historiadores. O que quero ressaltar com essa afirma%(o é queos conceitos de ética e de política, na maior parte das ve'es em que foram analisados,sempre foram estudados dentro do próprio marco da modernidade. / con1un%(o Atica e !olítica que aparece no título desse artigo dá conta de uma correla%(o entre inst>nciasaut0nomas e, portanto, de uma dis1untiva. Buando pensamos em ética e política pensamo<las precisamente assim, como campos separados referentes C a%(o humana. ontudo, e istoé o que me parece relevante e se transforma numa das teses centrais deste artigo, nemsempre foi assim ao longo da 2istória, nem sempre ética e política foram vistas como duasesferas aut0nomas e separadas, referidas ao homem e ao seu comportamento. / cis(o entre   ambas, como aponta einhardt FosellecG  : , foi uma das principais tarefas da 7odernidadee, mais ainda, um dos seus mais efetivos frutos. De fato, quando ho1e se pensa ou se fala otermo -ética ou o termo -política estamos nos referindo a uma realidade que pouco ounada tem a ver com os mesmos termos como foram usados, na Europa e na /mérica, até oscome%os do HI66. Entendemos por -Atica o con1unto de valores indicativos da condutahumana caracteri'ado pela esfera do privado, enquanto que chamamos de -!olítica a umoutro con1unto de valores caracteri'ado pela esfera do -público. esse sentido, seguindomais uma ve' um resumo feli' de FosellecG, a ética passaria assim a ser caracteri'ada peloa<político, enquanto que a política passaria a configurar<se de maneira a<ética.Bual seria a import>ncia destas refle9&es para os estudos sobre a 2istória 7odernaJO primeiro aspecto a destacar, e talve' o mais óbvio, é que partindo de uma vis(o do ético edo político como terrenos separados, dificilmente poderemos entender bem uma realidadeonde esse par de conceitos estavam intrinsecamente ligados. Ou, dito de outra forma, acrítica atual de que o ético e o político encontravam<se unidos por for%a da tradi%(o e dafor%a da 6gre1a católica n(o é suficiente e9plica%(o para entendermos a nature'a dessa uni(o porque, como pretendemos mostrar neste artigo, essa uni(o 1á estava dada muitos séculosantes da e9ist#ncia do próprio cristianismo.O segundo aspecto, e essa será uma das teses principais deste artigo, é que grande parte dos conflitos e tens&es provocados durante os dois primeiros séculos da 7odernidade, podem ser entendidos precisamente a partir deste outro ponto de vista. 2á, tanto na Europaquanto na /mérica e durante os séculos HI ao HI66, um intenso debate e uma profundatens(o entre aqueles que ainda mantinham uma percep%(o unitária da a%(o humana, tantoética quanto política, e aqueles, que 1á se afiguravam como -mais modernos e queestabeleciam uma nítida separa%(o entre ambos os campos. Este tipo de tens(o e estamaneira de analisar os fen0menos sociais, econ0micos e políticos foram pouco estudados.+inalmente, e em terceiro lugar, um outro aspecto relevante é que nos encontramosatualmente num desses momentos de crise, por voltar ao próprio título da obra deFosellecG, onde precisamente o que está em discuss(o, entre muitas outras coisas, é aesfera do ético e do político. De fato, a tomada do !oder pelo !artido dos 8rabalhadores foimarcada por mais de trinta anos de uma defesa persistente da necessidade de condu'ir a :   Crítica e Crise. Uma contribuição à patogênese do mundo burguês , ontraponto<Edur1, io de "aneiro, :KKK. L  vida pública e, portanto, o campo do político, de uma forma ética. / atual divis(o econtesta%(o que o !artido do governo está enfrentando está baseada, entre outros aspectos,numa dura crítica -radical, n(o no sentido de -e9tremada, mas no próprio sentido dotermo, uma crítica que e9ige do !8 uma volta Cs suas srcens, e uma identifica%(o dos princípios éticos com os políticos ou, se quisermos di'#<lo de uma outra forma, a críticaque o !8 está enfrentando atualmente é uma crítica que se fundamenta precisamente numamaneira de perceber as rela%&es entre ética e política de uma maneira que 1á n(o é mais-moderna. !ara os -radicais do !8, uma ve' que o !artido assumiu o governo, passou aatuar precisamente de acordo com a perspectiva burguesa e liberal de dissocia%(o de ambasas esferas, como todos os outros !artidos burgueses fi'eram e, voltando a FosellecG, comoé característico da patog#nese da burguesia. Os radicais do !8 est(o e9igindo uma escolha por um ponto de vista= os campos do ético e do político d(o<se 1untos ou separadosJ Essaquest(o é precisamente uma das quest&es mais instigantes e decisivas dos come%os da7odernidade. o presente trabalho analisaremos, em primeiro lugar, como eram colocadas asrela%&es entre Atica e !olítica para /ristótelesM em segundo lugar, como essas mesmasrela%&es foram entendidas por 7aquiavel, em terceiro lugar, qual foi o papel decisivo de2obbes na configura%(o de uma Atica e uma !olítica separadas, e, em quarto lugar, como acoloni'a%(o brasileira recebeu a influ#ncia dessa tens(o de conceitos e campos durante seus primeiros :N* anos. 8oda a refle9(o terá como pano de fundo latente o atual debate queatravessa o !aís e o próprio !artido no !oder. Aristóteles e  deter!inção do "usto / primeira coisa que chama a aten%(o quando estudamos /ristóteles é a suarefer#ncia C !olítica dentro de uma obra que trata de Atica  . !ara ele, a !olítica configura<secomo uma arte, a arte mestra, porque -determina quais as ci#ncias que devem ser estudadasnum Estado, quais s(o as que cada cidad(o deve aprender, e até que pontoM e vemos que asfaculdades tidas em maior apre%o, como a estratégia, a economia e a retórica est(o su1eitasa ela L .     Ética a Nicômaco , 6, :*K b, :<N. L    Ibidem.   /o falar do ob1eto específico do estudo da !olítica diria que iria tratar das -a%&es belas e 1ustas  . 3ma das primeiras conseq$#ncias que e9trairia desse modo de considerar a!olítica é que n(o poderemos tirar conclus&es nem verdades definitivas, porque tratando<sede um estudo sobre as diversas formas em que as a%&es boas e 1ustas se manifestam cabeapenas aceitar a própria nature'a contingente do assunto e, portanto, n(o há comoestabelecer defini%&es universais e categóricas. !ara /ristóteles, no terreno da !olítica, seriat(o insensato e9igir um raciocínio provável a um matemático como provas científicas a umretórico N .4ituamo<nos assim no ponto de ruptura entre !lat(o e /ristóteles. !ara !lat(o a!olítica é um tipo de conhecimento racional, entendendo por racional um conhecimentoque se desenvolve através de -paradigmas. O paradigma no seu sentido etimológico é o-modelo, o -e9emplo arquetípico, de valor universal, que permite ao homem estabelecer a estabilidade e a perman#ncia do racional frente C conting#ncia e mutabilidade da vida ) .Daí, como se sabe, o mito da caverna, defendendo a hipótese que a vida real é puraapar#ncia e sombra, enquanto o realmente real é o mundo das 6déias arquetípicas euniversais ?e, nesse sentido, racionais@, e a defesa dos sábios como aqueles mais preparados para transitar no mundo da !olítica P .!ara /ristóteles, o terreno do político, tanto quanto o terreno do ético, é ocontingente e prático. 8udo o que poderia ser falado sobre o bom e o 1usto tra' a marca do particular e contingente e, portanto, para ele, seria impossível, ou melhor, n(o condu'iria anenhum lugar pensar sobre o bem em si. 8ornava<se necessário refletir sobre o bem paranós Q . Bue tipo de conhecimento é, portanto, o conhecimento da conduta acertada, da a%(o 1ustaJ A um conhecimento que, de forma alguma, pode ser definido previamente, antes da própria conduta acontecer e que, portanto, nunca atingirá o grau de certe'a do     Ibidem , 6, :*K b, :N. N    Ibidem , 6, :*K b, N<L*. omo veremos, para /ristóteles, o discurso da !olítica é um discurso retórico e, como veremostambém, esse será o ponto de discord>ncia entre ele e 2obbes, para quem cabe reali'ar uma ci#ncia, e9ata e n(o apenas provável, da !olítica. )  3445/37, 7artha,  La Fragilidad del ien. Fortuna ! Ética en la tragediaa !la "iloso"ía griega , 7adrid, Ra balsa dela 7edusa, :KKN. P  Ie1a<se a !arte 66, e principalmente o ap. N, da obra de 3445/37, 7. Q  /ristóteles é incisivo quando afirma que -a palavra -bem tem tantos sentidos quanto a palavra -ser....e está claro que o bem n(o pode ser algo único e universalmente presente, pois se assim fosse n(o poderia ser predicado em todas ascategorias, mas somente numa. E  # 6, :*K) a, <L*. / seguir, e9plicará que no seu estudo n(o estará falando do-homem em si, mas do homem particular, e, quando no Rivro 66 definir o que entende por -virtude e9plicitará que setrata de uma disposi%(o de caráter que di' respeito a -uma propor%(o média relati$a a n%s . fr. ::*P a, :. N
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